segunda-feira, 24 de junho de 2013

Sobre uma garota que ouvia Cazuza;e não tomava café...


A garota foi um tipo de droga. Tu sempre teve uma droga de mania, uma droga de cheiro bom e uma droga de sorriso lindo. E tô sim, escrevendo sobre o vicio de uma garota que eu conheci numa tarde de segunda. E nas drogas que ela tinha consigo mesmo. Vai entender, né? Conheci ela sem querer, sei lá, num dia tão normal quanto hoje. Posso até dizer que não era um dia de sorte, porque era uma segunda-feira. Eu devia ter notado que você era furada, eu te conheci numa segunda. E amores de segunda, só duram até domingo. Você até que foi diferente, Julia. Você ouvia bandas da época do meu avô, e as cantava no chuveiro. E ficava de cara amarrada se eu batesse na porta pedindo pra você calar a boca. Você dizia pra mim desde o começo, pra não me iludir com o seu gosto musical. Você ouvia Cazuza, Los Hermanos, Beatles e Barão vermelho. Mas jurava de pés juntos que não tomava café preto, só nescau bem doce. Você sempre gostou de Scracho e Forfun, Julia. Mas nunca fez do tipo que gosta de serenata. Tentei cantar “Anna Julia” pra você uma vez, e você acabou rindo e dizendo que eu desafinava no refrão. Você tinha o seu próprio calendário, e nele você sempre odiou quartas-feiras. Mas eu lembro até hoje quando você riscou “ódio as quartas” porque meu aniversário caiu numa delas. Você sempre foi boa com as palavras, e sempre sentiu muito nelas. Mesmo dizendo que você é vazia e não sente nada. Você é desse tipo inesperado, Julia. E eu sempre odiei o seu jeito “surpresa”. Veja bem, eu sempre tive tudo no meu controle, de repente eu conheço um suposto amor da minha vida (numa segunda, vale lembrar) e perco o controle. De tudo, Julia, tudo. Porque eu perdia a linha do raciocínio quando você chegava perto demais. Com seu cheiro que me preenchia de um modo que ninguém nunca entendeu, e nem as palavras devem entender. Não era perfume, era… Cheiro de Julia. O cheiro que ficou no meu travesseiro, no meu pescoço e na minha roupa. Eu sempre preferi teus cheiros, aos meus perfumes. E o teu sorriso, Julia? O dia podia estar nublado, chuvoso, horrível. Mas aí vem você, dona de um sorriso que… Sei lá, abre umas coisas que não tem nenhuma descrição. Talvez eu esteja sendo um imbecil, pode até ser. Mas o vicio que você me arrumou em você, me faz escrever. Escrever, Julia. Eu que sempre odiei as palavras. Eu que sempre achei graça de quem escreve pra outra pessoa. Tô escrevendo sobre você. E se fosse só sobre você tava bom, mas é sobre o vicio de você. Da menina mais estranha que eu já conheci. Você tinha uma risada que não era só um riso, era um som que ecoava dentro de você. Porque tu ria, e cuspia até teu coração. Intensa, Julia, isso é o que tu sempre foi. Lembra que eu disse que amores de segunda duram até domingo? Hoje é quinta-feira. E eu tô escrevendo pra você. O engraçado é que foi exatamente no domingo que você disse “Não, Bê, hoje não tem filme. Hoje eu durmo em casa”. E você foi pra sua casa, e eu fiquei sem a minha. Tu foi meu teto e meu chão, tu foi a porra da minha casa. E faz quatro dias que eu não durmo em casa, Julia. E você com seus milhares de problemas, deixou teu refrigerante na porta da minha geladeira. O problema é que eu só tomo café. Tomava coca porque você tinha suas manias, que eu sempre odiei. Foi absurdo, Julia. Você me fez largar as minhas manias pra viver as suas. Eu prometi que você seria meu vicio só até domingo. Mas hoje é quinta, e eu já me sinto em abstinência. Não esquece, Julia. Não esquece a bagunça que você fez. Na minha gaveta, no meu armário, na minha vida. Faz diferente como tu sempre fez. Ao invés de querer durar só até domingo, volta no domingo. E anota aí no teu calendário por mim:
Odeio segundas-feiras.


Paloma M. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Nos amamos, Nos odiamos.

Eu sei, eu sei, a eterna certeza de que para-tudo-tem-um-jeito. Sinto dizer, mas as pessoas que afirmam isso estão redondamente enganadas. Há duas coisas no mundo que não tem jeito algum: a morte e nós dois. E não foi por falta de tentativas ou boa vontade de ambas as partes. Nós trabalhamos duro para que déssemos certo, o mundo está de prova. O problema é que existe uma barreira gigantesca entre querer que dê certo e fazer com que, de fato, dê. Nós somos como peças avulsas de quebra-cabeças que se perderam nas valas do universo. As nossas estradas possuem caminhos, direções e sentidos totalmente opostos. Não importa quantas vezes gastemos a última gota de suor que habita em nosso corpo para juntá-las, elas, de alguma forma, sempre se separam. Eu quero - e quero muito - que seja você o alguém que o meu corpo implora todas as manhãs, que o meu coração grita em todas as caladas da noite e que o meu lado dependente de ser precisa. Você, então, cisma em me fazer ser a mulher que estará para sempre do seu lado, com a cabeça encostada no seu ombro e os olhos fixos nos seus. O problema é que nós somos exatamente isso, mas não um pro outro. Eu sou exatamente a mulher que você precisa, mas não pra você. Assim como você é exatamente o cara que eu quero, mas não serve pra mim. É uma droga que certas coisas não dependam de nós mesmos. Enquanto a gente se enrola um no outro e pensa em como seria bom que durássemos pra sempre, o lado mais sombrio do nosso ego grita um pro outro e fere, corrói, machuca. Desculpa, não era isso que eu quis dizer. Tudo bem, eu também perdoo você. Certo, vamos começar pela milésima vez do zero, está bem? Mas os nossos recomeços sempre acabam em brigas, palavras afiadas e alterações na voz. A gente se ama na mesma proporção que se odeia e isso, de certa forma, é desgastante. Eu não aguento mais olhar pra você com vontade de te eternizar aqui dentro e, ao mesmo tempo, com um desejo incessante de arrancar todos os seus membros com as minhas próprias mãos.
Sei que não somos um casal iguais aqueles de filme francês, com a gente rola guerra de indireta, palavras estúpidas ditas da boca pra fora, mas no fundo você sabe que sou eu quem te completa, e é muita tolice da gente viver nesse pé-de-guerra, como gato e rato. Eu sempre quero ser a dona da verdade, mas reconheço que você tem todas as razões de dormir sozinho no nosso sofá, enquanto tento pregar os olhos vendo uma novela estúpida, enquanto o meu pensamento tá ligado em lençóis amarrotados, em nós dois juntos se amando como na primeira noite de núpcias naquele flete que o seu pai pagou. Você lembra que os primeiros oito meses de casados, éramos liberto dos pesares, das preocupações, das dívidas e das tentações, tentação mesmo era você chegar do trabalho cansado, e me ver você trajada com aquela lingerie branca, devorando os seus lábios com um batom vermelho, deixando marcas no seu uniforme. Vamos parar com essa ufania, vamos deixar o orgulho de lado um pouco e ser feliz? Dizem por aí que dois bicudos não se beijam, mas minha boca já desinchou, porque você não morde os meus lábios com tanto apetite, já não deseja o meu corpo com tanta ansiedade. Já se passaram seis anos, e completamos bodas de perfume, é estranho porque o único cheiro que sinto dentro dessa casa, são os da poeira que cobrem os móveis, acho que está precisando urgentemente de uma faxina, acho que nós precisamos de uma faxina...