sábado, 6 de setembro de 2014

Crônica da Despedida.

Terminou.
E você, como sempre, estava certo: tudo termina. Às vezes de um jeito rápido, como um estalar de dedos. Noutras, como agora, tudo parece se arrastar em câmera lenta, um filme noir que não tem pressa para chegar ao fim.
Hei de aproveitar cada instante dessa dor, desse pesar, desse emaranhado de lembranças porque sei que, em breve, tudo deixará de ser. Teu cheiro irá embora apenas para me assombrar quando surgir em outros corpos. Teu gosto fugirá dos meus lábios e, um dia, será como se nunca tivéssemos trocado um beijo. Tua voz, minha música favorita, será silêncio absoluto.
O sono foge pela janela cada vez que, ao deitar, minhas pernas tentam se confundir com as tuas e só encontram o lençol gelado. A cama deixou de me servir: antes parecia pequena demais para nós dois, agora não cabe mais no quarto – assim como a saudade não cabe mais em mim. Entre dormir e não dormir evito acender as luzes: fazer isso seria te reconhecer em cada canto desse lugar que já foi tanto teu quanto meu.
Não quero de volta nenhum dos presentes que te dei. Se puder, porém, gostaria de voltar a ouvir aquele disco do Vinicius sem reconhecer teu sorriso em cada música. Seria menos triste, também, lembrar de Buenos Aires sem ouvir tua voz arranhando o pior (porém mais sensual) espanhol que tenho lembrança. 
Esses dias vazios serão preenchidos tentando responder a pergunta que nós dois ouviremos muitas vezes: por que acabou? A resposta é óbvia, mas não me aquieta: porque, como você mesmo já falou, as coisas acabam. Às vezes parece que nós – e todos nossos amigos – já esperavam isso. Outras vezes não vejo nenhuma razão, nenhum porquê, e isso me faz pensar que a vida é essa incoerência sem fim, mesmo: acabou por mil motivos e por nenhum. Acabou porque era para acabar.
Ainda assim, não irei bradar que “deu errado”. Nós demos certo, e muito certo. Fosse o contrário, não doeria, sequer deixaria as marcas que deixou. Demos certo até que, de repente, chegou ao fim. Aceitar isso é diminuir a duração desse luto – porque, felizmente, ele também tem hora para acabar.
Agora vai e ama. Afunde-se noutras paixões, noutras histórias. Escreva dezenas de outros capítulos na vida das pessoas sortudas que irão conhecê-lo. Um dia, quando a tinta secar e as cicatrizes se fecharem, voltarei algumas páginas para relembrar todas as linhas que escrevemos juntos. Se tudo correr bem, será como reler um livro querido, guardado há algum tempo no fundo da estante. Eu te amei à primeira vista – e continuarei amando, até minha vista deixar de te ver.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Perder alguém é não ter ninguém.

Todo mundo já teve (e se não teve, terá) uma paixão avassaladora. Aquela pessoa que aparece na sua vida e, de repente, parece ter sido feita para você. O ar fica rarefeito perto dela, é difícil pensar e, às vezes, formar uma frase completa parece uma tarefa exaustiva. É uma questão de tempo (pouco, em certas situações) para que tudo comece a girar em torno dela. Você começa a ouvir as mesmas bandas, assistir os mesmos filmes e frequentar os mesmos lugares.
Demora, mas vocês começam a namorar – e, sem aviso prévio, a felicidade imensurável que todo relacionamento traz vem acompanhada de uma carga gigantesca de insegurança: vai dar certo? Esse é o tipo de pergunta que, se repetida à exaustão, fabrica a própria resposta. Não, não vai dar certo.
E a culpa é sua.
Fomos ensinados, pela cultura pop – de Romeu e Julieta aos filmes românticos ruins dos anos 80 e 90 – que o amor só bate uma vez à nossa porta. Que ele acontece à primeira vista e precisa ser hiperbólico, exagerado, de tirar o fôlego. Mais que ilusão, é uma visão egoísta de amor: acreditar que certa pessoa nasceu para você é assumir um sentimento de posse, excluindo a individualidade alheia.
Essa verve de pensamentos fatalmente deságua em um rio de insegurança, obsessão e ciúmes. A dúvida da reciprocidade – saber se a outra pessoa sente “o mesmo”, como se fosse possível medir amor da mesma forma que medimos distâncias ou alturas – traz medo. Antes que seja possível perceber, o estrago está feito: na sua cabeça, a outra pessoa está errada. Com certeza não gosta tanto assim de você e, na verdade, deve fantasiar com os braços de outro alguém toda noite.
Não é exagero. Muitas pessoas perdem o sono imaginando situações desse tipo. Esses pensamentos (e esses sentimentos) são sorrateiros: com uma facilidade assustadora, conseguem tirar toda a calmaria que o amor de outrora havia trazido. Toda a paz que o sorriso da outra pessoa trazia para o peito vira aperto e ciúmes, imaginando se ela está sorrindo assim para outra pessoa – e, se isso não acontece, a insegurança bate à porta: “ela já sorriu assim para outros, antes de mim?”.
O que deveria ser leve fica pesado. O fácil torna-se difícil, o prazer torna-se dor. A pior parte, porém, sofre do outro lado: é ainda mais difícil entender o que está se passando quando nós somos o alvo da obsessão. Os ataques e acusações são repentinos e, ainda que a primeira reação seja relevar, deixar passar, chega uma hora que rotina nenhuma dá conta de aguentar isso. Não há paixão nem amor que resista.
Numa sociedade que glorifica o homem que transa com quem quiser – mas crucifica a mulher que é dona de seu corpo e de suas decisões, é ainda mais fácil encontrar esse tipo de relação. O homem cerca-se de preconceitos e falácias para acusar sua companheira e duvidar de sua fidelidade graças a coisas que ela, um dia, pode ter feito. Esquece, porém, que todos nós temos um passado – e que, diferente do conto de fadas, as pessoas não ficam escondidas do mundo até a hora de entrar em cena.
É normal sentir um pouco de ciúmes – a maioria das pessoas acredita que, em pequenas pitadas, é algo benéfico para um namoro – e ter insegurança de vez em quando é tão normal quanto ter preguiça de sair da cama às sete da manhã (desconfie de pessoas seguras demais e daquelas que amam acordar cedo). O problema é confundir paixão com obsessão e acabar com uma linda história de amor (da vida real, escrita com suor, companheirismo e confiança) antes mesmo dela chegar à página dois. Prender alguém é não ter ninguém, e é muito chato ler um livro com apenas um personagem – especialmente se for um protagonista ranzinza.