- Achado por aí. Paloma,M.
Meu dia amanheceu cinza. Nem me dei o trabalho de levantar com o pé direito -como sempre faço -hoje eu sabia que os dois seriam esquerdo.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Então chamei de amor.
Ontem eu escrevi um puta conto de amor. Um puta conto de um amor do caralho. Aquele amor que é amor mesmo. Que é tão e tanto que chega a ser até o contrário. Aquele amor que você quer tanto ter por tudo que nada serve pra satisfazer a vontade. Aquele amor que te faz querer pular do alto. E enfiar a cabeça na privada, dar uma série de pancadas com a tampa, pra ver se acorda. Eu acreditei tanto nesse amor que eu tive - que escrever - que, hoje, acordei apalpando a cama pra ver se a encontrava ao lado. Respirei fundo e me enchi de mundo pra ver se aguentava: ela não tava ali. Lembrei que quando a escrevi me despedi dela. Gritei bem alto pra ver se ela me escutava e voltava. Vai ver era só isso. Eu pisei na bola. Tropecei, caí com as costas na calçada e fiquei três minutos sem ar. Quase morri, mas nem isso. Nem isso e nem ela. E qual era o seu nome? Não sabia. Mas chamei mesmo assim. Não sabia. Nem sei, mas amor deve servir. Chamei por amor, disse vem. E o amor nada. Mas como eu disse ontem, amor deve ser mesmo isso. Deve ser mesmo ir. Comprar a primeira passagem que aparecer na tela e despachar o corpo pra qualquer lugar no globo. Amor é comprar a ida e esquecer que existe a volta. Amor é a única coisa que não cabe naquele provérbio - é isso?: tudo que vai, volta. Amor não. Amor só vai. É só ida. E assim, se engana quem não percebe que amor nunca pertence a quem ama. Pensei agora no Caio F. - ainda não é nem final de semana e eu já com metade do corpo enfiado na lama. Aquilo, de jogar pro alto, se não voltar é porque nunca foi seu, sabe? É isso! Amor não tem dono. É terreno sem posse. Localizado de frente pro mar e de costas pro inferno. Que triste. O amor é profundamente triste. Mas é profundo, primeiro. Então até parece bonito. Chove lá fora e eu sei que ela não existe. A gente inventa quem a gente ama. Porque a realidade não é suficientemente amável. A gente pega um corpo, e tira toda a roupa e se coloca em cima dele pra ver como fica. A gente veste quem a gente ama da gente. Se você ficar bem comigo, a gente casa. Caso contrário, tem um bar muito bonito em alguma esquina, com um banheiro decente e batata frita. Ontem eu sonhei com ela. Depois que a escrevi e tentei com as mãos alcançar as pernas dela, mas nem as pernas e nem ela estavam ali. Dizem que a gente adoece quando ama algo que não existe. Mas amor por si só é uma doença. Então nunca ninguém existe. O amor é só você e seu reflexo no espelho sozinho em casa em um domingo nublado.
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