Ao lado do corpo havia uma carta, suja de dedos, manchada de lágrimas e surda de gritos. No corpo havia um coração que ainda batia. No corpo havia uma alma agonizando e implorando por socorro. Os gritos foram abafados. Ninguém sabia o motivo da pobre menina estar atirada sobre o chão de espinhos. Na carta havia amor, havia sangue que ainda pulsava sobre as veias. Suicídio? Todos se perguntavam. O suicídio é coletivo, tinha um motivo, mas todos colocaram vendas e preferiram não entender. Ela se foi, disse o médico. E jogada ao chão, seus olhos se fecharam. As lágrimas continuaram a transbordar, e escorrendo por seu resto deixavam suas marcas. Deixavam marcas em corações. Sua alma ainda implorava por ajuda, mas os hipócritas não enxergavam. Ela se foi, não tem mais volta. Tarde demais para tentar compreender. A sentença foi dada, vocês são os culpados! Tarde demais para se entristecer. Ela se foi, e junto levou o encanto. A cidade perdeu a cor. Os sorrisos se tornaram mares de lágrimas. A felicidade virou tristeza. As nuvens deixaram de ser doces. E até o arco-íris ficou em preto e branco. O sol se recusava a sair de dentro das nuvens, ele estava de luto. Ela só queria amor, mas é tarde demais. Os poetas choram, a cidade ora. Os poetas compreenderam o motivo e lamentaram pela alma da menina que já havia morrido por dentro há tempos. A tristeza era exata. Ela se foi, ela se jogou da janela do décimo andar. Pobre menina que queria ser um pássaro. Pobre menina que só queria bater suas singelas asas e se livrar das correntes e gaiolas que a cercavam e impediam de voar. Ela se jogou. Ela se foi. Mas os poetas ainda choram.

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