quinta-feira, 15 de maio de 2014

Crônica pra quando ela voltar..

  Fico atento ao relógio, conto com ele cada segundo que se vai, só que de maneira mais doída. Eu sei que ele não tem coração, pelo menos não igual ao nosso, mas parece sentir tanto quanto eu a ausência dos passos dela pela casa.
Quando ela chegar, vou dizer a verdade. Vou dizer o quanto senti a falta dela. Não me importo em soar cafona, nem um pouco. Ter dignidade é ser sincero e encarar as consequências, sejam elas quais forem. Contarei pra ela da minha saudade, não a comum, mas da saudade nua, sem carência de vestido ou calcinha. Vou lhe espalhar beijos pela nuca, envolver o seu corpo no abraço mais aconchegante que eu conseguir, sussurrando em seu ouvido o meu desejo por um mundo feito somente do abraço dela.
Quando ela chegar, atenderei a porta com flores nas mãos e direi: “pode entrar, fique à vontade e não precisa tirar os sapatos – só o vestido”. Depois, um tango torto. Pernas entrelaçadas em um passo de improviso e um sorriso no rosto. No rádio, uma canção escolhida a dedo; na mesa, o chá que ela tanto gosta, perfumando a casa com cheiro de saudade.
As mazelas do mundo não importam. Não nesse momento. Não agora que senti o peso de como seria uma vida sem ela, sem a mão dela sobre o meu peito todo dia de manhã ao acordar, sem aquela risada gostosa de quem leva a vida como um poema escrito à máquina. Tudo o que eu quero agora é uma dança lenta, sentir os dedos de camomila dela passeando em meus cabelos, acalmando cada centímetro do meu ser e dando paz e mansidão ao que antes era só tempestade.
Não quero discutir o que já foi, nem ter um ataque de ciúmes perguntando sobre cada detalhe dos passos que ela deu enquanto não estava aqui. Eu prefiro as rendas, as unhas, as mordidas e a fome viva na carne… A santidade pode esperar.
Eu prefiro estar coberto de beijos do que de razão.
Jocê Rodrigues 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Solidão soa aos meus ouvidos.

    Hoje ao voltar para casa, depois de quarenta anos, peguei-me pensando na época em que eu era nova; tinha um corpo bonito, uma carreira estável e haviam vários homens morrendo de amores por mim. Eu passava o dia todo trancafiada em uma sala de escritório, com pessoas vazias que só sabiam olhar pro próprio umbigo. Assim como eu, admito. Do serviço pra casa. Era o único caminho que eu sabia fazer. Chegava em casa e me trancava no quarto, colocava alguma música na vitrola e ficava cantarolando. Antes de dormir pegava algum dos livros de autores preferidos meu, como Álvares de Azevedo, Castro Alves ou até mesmo Machado de Assis. Achava que minha vida era um mar de rosas. Nunca me permite amar alguém. Todos os poucos homens com quem me relacionei nunca duravam mais do que algumas semanas ou algumas horas. Eu sempre terminava com tudo antes do dia amanhecer. E sempre saia com o coração tranquilo. Sem apego, era quase um lema pra mim. Mas, olhando depois de quarenta anos, eu vejo o tanto que perdi. Hoje minha carreira se resume a ser boa na cozinha, meu corpo já não aguenta mais a rotina que eu tinha, está desgastado. Não há mais nenhum sexo oposto morrendo de amores por mim, a não ser os meus dois cachorros que sempre abanam o rabo quando volto do mercado. Sentei-me na poltrona ao lado do rádio que ainda tocava a rádio que eu costumava ouvir. E foi assim que eu terminei. Sentada. Ouvindo a solidão me dizer que era tudo culpa minha... 

Paloma M.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Outubro Lugar.

    Então eu acordo ás 02 da madrugada por que sua imagem não sai da minha cabeça. Eu puxo meu cabelo com as duas mãos gritando comigo mesma por ser tão idiota em sempre acreditar em algo que eu sei que não vai dar certo. Quem sustenta essas esperanças? Deve ser aquele maldito café que eu tenho mania de tomar sempre ás 22 horas mesmo sabendo que ele vai me dar uma insônia terrível. Vicio. Sou viciada em você como sou viciada em café, mesmo sabendo que os dois sempre me farão mal.
Lembro que o peso do começo de Setembro não me deixava dormir, talvez porque as luzes piscavam rápido demais ou talvez porque teus olhos estivessem sempre gravados atrás dos meus e incendiassem minha cabeça. Setembro me fez querer desaparecer, só pra poder aparecer em outubro lugar... Metáfora? Sei lá.. 10 de Outubro, mas ainda me parece ser Setembro...



Paloma M.