terça-feira, 6 de maio de 2014

Solidão soa aos meus ouvidos.

    Hoje ao voltar para casa, depois de quarenta anos, peguei-me pensando na época em que eu era nova; tinha um corpo bonito, uma carreira estável e haviam vários homens morrendo de amores por mim. Eu passava o dia todo trancafiada em uma sala de escritório, com pessoas vazias que só sabiam olhar pro próprio umbigo. Assim como eu, admito. Do serviço pra casa. Era o único caminho que eu sabia fazer. Chegava em casa e me trancava no quarto, colocava alguma música na vitrola e ficava cantarolando. Antes de dormir pegava algum dos livros de autores preferidos meu, como Álvares de Azevedo, Castro Alves ou até mesmo Machado de Assis. Achava que minha vida era um mar de rosas. Nunca me permite amar alguém. Todos os poucos homens com quem me relacionei nunca duravam mais do que algumas semanas ou algumas horas. Eu sempre terminava com tudo antes do dia amanhecer. E sempre saia com o coração tranquilo. Sem apego, era quase um lema pra mim. Mas, olhando depois de quarenta anos, eu vejo o tanto que perdi. Hoje minha carreira se resume a ser boa na cozinha, meu corpo já não aguenta mais a rotina que eu tinha, está desgastado. Não há mais nenhum sexo oposto morrendo de amores por mim, a não ser os meus dois cachorros que sempre abanam o rabo quando volto do mercado. Sentei-me na poltrona ao lado do rádio que ainda tocava a rádio que eu costumava ouvir. E foi assim que eu terminei. Sentada. Ouvindo a solidão me dizer que era tudo culpa minha... 

Paloma M.

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