Hoje eu acordei mais cedo que o normal. É final de semana; sábado pra ser mais exata, e todo mundo acorda tarde, mas eu não. Eu não consigo. Tem uma padaria do lado da minha casa, antes dela voltar a funcionar eu dormia como um bebê, até as 3h da tarde. Ou o bebê cresceu ou eles que me atentam demais mesmo. Uns pedreiros que estão trabalhando aqui perto, na construção de uma ponte tomam café lá, às 7h. Isso mesmo, às 7h da manhã. Eu consigo enrolar na cama até às 8h e pouquinho. Me dá agonia ficar deitada olhando pro teto sem ter nada pra fazer. Eu tinha curso de inglês à tarde, e eu sou muito lerda. Minha mãe diz que nunca viu alguém tão lesma quanto eu. Corri pra cozinha e me deparo com o meu tio na varanda, como sempre, fofocando. Falando da minha vida, e essas coisas que os parentes fazem. “É, esses dias eu vi a Mariana lá no terminal de ônibus, estava abraçada com um garoto…” — Mariana sou eu, prazer. Minha mãe me olhou séria, deu um riso meio baixo meio alto. — “É Jorge, já falei pra ela, quem fica com todo mundo acaba sem ninguém!” — Eu que costumo sempre ficar calada, retruquei. “Com todo mundo, com to-do mundo, mãe? Você não escutou o que ele disse? Eu estava abraçada. Eu não estava beijando, nem pegando, alisando ou algo do tipo. Eu estava a-bra-ça-da.!” Virei as costas e empurrei a cadeira em que eu ia me sentar na direção da porta. Ouvi o riso sem graça do meu tio e minha mãe dizendo o quanto eu andava “estressadinha” ultimamente. Desisti do meu pão com presunto e água. É, eu detesto refrigerante, café, suco e esse tipo de coisa. Fui pro banho, a água estava gelada pra caralho, era um dia frio e o chuveiro já não está lá essas coisas. Terminando aquele gelado banho fui pro meu quarto, me arrumei de uma vez e fiz o que eu tinha que fazer, sem atrasos. Tinha me atrasado o mês todo, mais um e talvez eu perdesse a bolsa. Não que minha mãe não tivesse dinheiro pra pagar um curso de inglês, eu é que nunca tive vontade mesmo. Me viro muito bem com meu “i love you”. Mas, como diz minha mãe, burro dado não se olha os dentes. Resolvi fazer o tal curso, e já tenho feito por uns dois meses, senão me engano. Mexi um pouco na internet, sei lá, ultimamente ela tem estado um porre, chata demais mesmo. Nada de novo, mas eu nunca consigo sair dela. Entrei no site do curso e vi que tinha um novo aluno na minha sala. Marcelo Ricardo. Nossa, que nome. Nunca gostei muito desses nomes compostos. Pra menina até vai; Maria Luiza, Anna Laura… Agora, Marcelo Ricardo? Foi uma junção da vontade dos pais ou pura breguice mesmo? Enfim, eu não estava muito anciosa pra conhecer o menino do nome estranho. Na verdade, não tenho estado anciosa pra conhecer ninguém.
Cheguei atrasada, mas não a ponto de levar falta na primeira aula. Sentei, coloquei a mochila na carteira do lado e olhei para o professor chatinho com pinta de padre. Sério, ele usava calça social, uma blusa muito feinha por dentro da calça e um cinto que me parecia ser bem velho. De mil novecentos e minha vó ainda tinha peitinho duro, sabe. Sem ofensas, mas pra mim ele sempre pareceu seminarista ou algo do tipo. Ele pegou o livro, e pediu que abríssemos na página 36. Nessa hora eu prestei atenção na mão dele, nunca havia reparado, mas choquei ao ver uma aliança. Uma aliança, sério? Na mão do professor padre, seminarista ou sei lá o quê? Ele é bem esquisito. É um daqueles caras que a gente olha e pensa “que mulher teria coragem de transar com ele?” Ele bateu com a mão na minha mesa. “Dá pra parar de ficar sonhando acordada e abrir o livro?” “É claro que dá, se o senhor esperasse um segundo. É que eu acabei de chegar né…” “É, percebi. Atrasada como sempre. Esses bolsistas acham que podem chegar a hora que querem, quero ver chegar à algum lugar se perder essa bolsa.” Me coloquei na posição de estressadinha, novamente. Fechei a cara e franzi a testa, olhei pro lado como quem quer dizer “foda-se, nem queria estar aqui mesmo”. Ouvi uma risadinha estranha vindo do meu lado direito, hesitei um pouco em olhar, então virei meus olhos aos pouquinhos. O garoto olhava pra mim e ria. Não sei se era do professor, da minha testa franzida ou dos meus olhos, mas ele ria. Ele usava óculos e tinha os dentes da frente bem separadinhos. Mas não era de todo feio; com a boca fechada pelo menos. Eu o encarei, e procurei fechar mais ainda a minha cara já muito fechada. Fiquei com medo de fechar demais e depois não conseguir abrir. Porque é o que minha mãe diz, quando a gente chora demais, esquece de como é sorrir… Bom, deixando as filosofias da minha mãe pra lá e voltando ao tal garoto e o meu professor. O professor fez a chamada, e adivinha quem levantou a mão ao ouvir Marcelo Ricardo? Ele. Exatamente! Olhei pro teto sem acreditar. O menino do nome esquisito e risadinha mais esquisita ainda já tinha uma história comigo. Uma história de três minutos. Uma história de risada, cara fechada e testa enrugada.
A aula até que passou rápido, e eu estava louca pra ir pra casa e ver o último episódio de The Vampire Diaries. Pra mim Elena (a “mocinha” da trama) ia se decidir de vez com quem ficar. Pro meu desgosto, ela deixou a resposta meio que… No ar. O jeito é ver esses seriados mesmo, já que minha vida é tão pouco agitada. Nunca que dois caras. Dois caras super gatos se apaixonariam por mim. Irmãos, ainda por cima. O único garoto que realmente me dá mole é meu vizinho, Otávio. E ele não tem nada de gato. Cabelo meio oleoso e muitas marcas de espinha no rosto. Ele é legal, só que… Sei lá. Mas eu também não posso exigir muito, não tenho nada de mocinha.
Peguei minhas coisas e saí do curso, ficava em um prédio grande, mas eu sempre ia de escadas. O tal garoto veio atrás de mim. “Ei, qual é o seu nome?” — Continuei descendo, não abri a boca. — “Tá, você é difícil e emburradinha. Disso eu já sei. Mas eu sou insistente, então posso ficar te seguindo o dia todo.” “Mariana. Meu nome é Mariana” “Ah tá, prazer Mari, eu sou Marcelo!” “Não, não sou Mari pra você. Sou Mariana. E, se me der licença, Marcelo, eu preciso ir.” — Eu tremia. Juro, não consigo explicar o porquê, mas esse garoto causava alguma coisa em mim, sabe? Os garotos não costumam se interessar por mim ou puxar algum assunto. As pessoas não são insistentes comigo; ele foi. — “Olha só Mariana, vamos fazer assim. Você dá uma voltinha comigo no parque, hoje. Coisa de 15 minutos, pode ser? De qualquer jeito nós vamos nos ver sempre no curso e eu tenho que passar lá pra comprar pipoca na barraquinha preferida da minha irmã.” — Eu pensei por 12 segundos (sim eu contei), e… — “Tá, tudo bem. Não tenho nada de importante pra fazer mesmo.” “A não ser ver um daqueles seriados idiotas né? Aposto. Minha irmã passa a tarde toda vendo. É um saco.” — Mas… Como? Nessa hora pensei em perguntar se ele era vidente ou algo do tipo. Mas ele disse que era um saco, e eu queria impressioná-lo de alguma forma. Não queria ser “um saco” pra ele. — “É. Um saco!” — Concordei dando um sorriso amarelo.
E lá estávamos nós, no tal parque. Comendo pipoca e jogando conversa fora. Ai, Deus, eu me diverti muito. Nunca havia me divertido tanto, eu acho. Nós vimos um casal de velhinhos juntos, e eu imaginei nós dois naquela mesma situação. Eu não sabia o que ele pensava no momento, eu pelo contrário dele, talvez, não fosse vidente. Vimos uma criança linda, do tipo que a gente olha e pensa “ah, quando crescer…” Mas, sem malícia, só por pensar o quanto mais linda ainda ela pode ficar. Eu gostava de tudo aquilo. Da nossa diferença toda, gostava da pipoca e do jeito que ele olhava pra mim. Ele também gostava. Do meu cabelo mal cortado, do meu esmalte descascando e da minha orelha, meio de abano. Horas e horas se passavam, e esse era o tipo de sonho do qual eu não queria acordar. O celular dele tocou, era a irmã, preocupada com o atraso. E nessa hora eu tive uma crise de risos. O toque era “Fogo de Palha”, do Mc Buchecha. Ele riu também. “Por que está rindo?” “O toque… O toque do seu celular” “Você não gosta de funk?” “Absolutamente não. Sei lá, já experimentou escutar rap, ou reggae?” — Ele ri novamente, e coloca meu cabelo atrás da orelha, pra continuar admirando aquela minha risada boba. — “Ah, esse tipo de música não é muito a minha praia. Gosto de música que me anime!” “Funk não é música!” “Cala a boca.” — Nós continuávamos rindo, nossos ouvidos agradeciam por aquelas gargalhadas gostosas, que a gente ouve e fica querendo mais. Daí ele resolveu me ligar pra ouvir o meu toque. Eu coloquei o celular na mão e esperei. “O que é isso?” “Tupac…” “Isso é o quê, de comer?” “Ah tá, falou o garoto em que o toque do celular dele é de um cara em que o nome profissional é uma parte do corpo. Buchecha. Sério? Faça-me o favor…” E nós poderíamos continuar a tarde, a noite, a madrugada toda e talvez até por dias naquele vai e vem de conversas, falando sobre nosso inglês xulo ou da incompatibilidade musical.
E ele começou a ouvir Projota e cantava Chuva de Novembro quando eu deitava no colo dele no sofá pra cochilar. Eu acordava ouvindo 107FM, e já cantava “atoladinha” no chuveiro. Nós vivemos um romance de filme. Deus escolheu o roteiro perfeito pra nós. Ou então de um livro, talvez um escritor famoso estivesse escrevendo toda a nossa vida. Eu encontrei aquele amor torto, mas que se encaixa perfeitamente no meu amor nada certo também. Eu encontrei o que todo mundo procura, mas não faz idéia de onde encontrar. É… Por cinco meses eu fui feliz, eu fui feliz pra porra. Eu que sempre odiei nomes compostos ganhei uma gatinha, que pus o nome de Maria Guilhermina. Passei a pedir pra minha mãe comprar refrigerante pra mim, aquele… Dolly, sabe qual é? E ela sempre me questionava o porque desse gostar repentino de refrigerante de marca barata, mas não ousava contar que era porque era o preferido dele… Todo sábado de manhã, quando eu ainda acordo super atrasada, com a barulheira na padaria e minha mãe e meu tio falando de mim na varanda, eu vou no meu computador e olho. Não o site do meu curso de inglês. Eu olho aquela foto; eu com a testa franzida e ele me olhando e sorrindo, com os dentinhos separados, que hoje, fazem uma falta danada pra mim.
Paloma M.



